quinta-feira, 25 de junho de 2026

A Criação Imperfeita de um Deus Perfeito

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Dizem que Deus é perfeito.

Dizem também que nós, Suas criaturas, estamos aqui para “caminhar para a perfeição”. E que esse caminho se daria através da evolução.

Mas há algo nessa afirmação que sempre me pareceu estranho.

Porque, se Deus é perfeito, que sentido teria criar criaturas tão evidentemente imperfeitas? Não apenas frágeis, limitadas, ignorantes ou inacabadas. Mas criaturas capazes de crueldade. Criaturas capazes de guerras, massacres, abusos, destruição, humilhação, domínio, sadismo e indiferença.

Criaturas atravessadas por instintos tão insaciáveis que, muitas vezes, parecem não desejar apenas viver, mas devorar.

Então a pergunta se impõe.

Que tipo de perfeição cria uma existência onde o sofrimento é tão estrutural?

Se um Criador perfeito cria seres imperfeitos para que eles sofram, errem, destruam, se percam, sejam feridos e depois, lentamente, tentem retornar a uma perfeição que nunca conheceram, algo nessa ideia precisa ser olhado com mais profundidade.

Porque, se Deus é realmente perfeito, por que a criação não nasce em harmonia?

E se a criação nasce marcada por conflito, violência, fome, desejo, morte, disputa e angústia, talvez precisemos abandonar a imagem infantil de um Deus perfeito no sentido moral, limpo, acabado e sem sombra.

Talvez essa perfeição não seja ausência de contradição.

Talvez aquilo que chamamos de Deus carregue em si também o abismo, a potência bruta, o caos, a força criadora e destruidora da vida.

Porque a vida não é apenas beleza.

A vida também rasga.

A vida devora a si mesma para continuar. Uma espécie se alimenta da outra. Um corpo envelhece para que outro nasça. A natureza floresce, mas também apodrece. O mesmo sol que aquece pode queimar. A mesma água que nutre pode afogar. A mesma força que cria pode destruir.

Então talvez o problema esteja em termos confundido perfeição com pureza moral.

Como se o divino fosse apenas bondade, luz, paz e ordem.

Mas a experiência humana — e a própria observação da natureza — nos mostra outra coisa. Mostra que a criação é atravessada por forças ambivalentes. Forças que não cabem no nosso desejo de um Deus domesticado, maternal, protetor, sempre bom.

Talvez o sofrimento não prove a inexistência do divino.

Mas certamente desmonta a imagem ingênua de um Deus perfeito no sentido em que nós gostaríamos que Ele fosse perfeito.

Porque, se a criatura contém sombra, instinto, voracidade e violência, de onde essas forças vieram?

Se tudo procede da Fonte, então a sombra também precisa ser pensada dentro do mistério da Fonte.

Isso requer outro olhar para a questão - um olhar menos unilateral. 

Não estamos mais diante de uma espiritualidade feita para consolar o ego. Estamos diante de uma pergunta perigosa: e se a evolução não for o caminho de retorno a uma perfeição perdida, mas o trabalho árduo de tornar consciente aquilo que, na própria criação, nasceu inconsciente, bruto e indiferenciado?

Nesse caso, caminhar não seria “ficar perfeito”.

Seria aprender a sustentar forças opostas sem ser possuído por elas.

Seria reconhecer que há crueldade em nós, desejo de domínio em nós, fome em nós, inveja em nós, impulso de destruição em nós. E que negar isso em nome de uma suposta luz só nos torna mais perigosos.

Porque o mal inconsciente é sempre mais destrutivo do que a sombra reconhecida.

Talvez a verdadeira evolução não seja uma escalada rumo à perfeição, mas uma travessia rumo à responsabilidade.

Não nos tornamos mais divinos quando fingimos não ter sombra.

Tornamo-nos mais inteiros quando podemos olhar para aquilo que em nós ainda é arcaico, faminto, infantil, cruel, ressentido, vingativo, e não entregar o comando da vida a essas forças.

A criação talvez não seja imperfeita como erro.

Talvez seja inacabada como processo.

Mas, se é processo, então não podemos mais falar de perfeição como algo pronto, imóvel, puro, sem conflito.

A perfeição, se existir, talvez não esteja no começo.

Talvez esteja na capacidade de atravessar o caos sem se tornar servo dele.

E talvez o Criador não seja essa imagem polida que tantas tradições tentaram nos entregar.

Talvez o Criador seja também o mistério terrível da vida: aquilo que gera, sustenta, devora, transforma e exige consciência de suas criaturas.

Por isso, não me convence a ideia de que estamos aqui apenas para “caminhar para a perfeição”.

Talvez estejamos aqui para algo muito mais difícil.

Estamos aqui para nos tornarmos responsáveis pela força criadora que carregamos.

Porque ser imagem e semelhança do Criador não significa ser puro.

Significa carregar potência.

E toda potência que não se torna consciente pode criar mundos — ou destruí-los.

 

Mais um texto do blog Psimbolom 

 

Um comentário:

  1. Falando por mim pelo pouco que conheço não somos dignos de perfeição mas sim neste plano de aprendizado nos desenvolver para aos poucos galgar serenidade e discernimento de saber atos e consequências...

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