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Há imagens que chegam antes do pensamento.
Em uma delas, podemos imaginar uma grande festa social. Tudo está organizado para a aparência: roupas elegantes, brilho, joias, postura, reconhecimento, circulação. A cena parece sofisticada. Há pompa. Há glamour. Há uma espécie de corte contemporânea, onde cada um sabe como deve aparecer.
Mas, no andar de baixo, longe do salão principal, há meninas perdidas.
Elas não sabem exatamente para onde ir. Estão fora do centro da festa, fora do espetáculo, fora do olhar social. Não estão sendo vistas por quem brilha. Não estão sendo orientadas por quem ocupa lugar de destaque.
Essa imagem, embora simples, toca uma questão profunda do nosso tempo:
quem está orientando aqueles que ainda estão em fase de crescimento?
Não falo apenas de crianças ou adolescentes. Falo também dos adultos jovens, dos sujeitos em formação de identidade, das pessoas que já chegaram à vida adulta, mas ainda não encontraram eixo interno suficiente para sustentar escolhas, limites, desejo e realidade.
Falo de uma geração que recebe estímulos, imagens, opiniões, técnicas, convites ao prazer, promessas de sucesso, narrativas de autoestima, fórmulas de cura e discursos de liberdade — mas pouca orientação real.
Quando a maturidade abandona sua função
Toda cultura precisa de figuras capazes de transmitir algo.
Não apenas conhecimento técnico. Não apenas informação. Não apenas opinião.
Transmitir significa oferecer referência, contorno, memória, limite, direção e responsabilidade. Significa ajudar quem está crescendo a diferenciar impulso de desejo, desejo de destino, liberdade de atuação, prazer de sentido, imagem de identidade.
Em muitas tradições, essa função era atribuída aos mais velhos: anciãos, mestres, avós, mães, pais, professores, terapeutas, sacerdotes, curadores, conselheiros. Não porque fossem perfeitos, mas porque ocupavam simbolicamente um lugar de maturação.
O problema é que, em nossa cultura, muitas pessoas que poderiam ocupar uma função de orientação foram capturadas por outro imperativo: o de permanecer jovens, desejáveis, visíveis, produtivas, prazerosas, performáticas e socialmente relevantes.
O lugar do sábio foi sendo substituído pelo lugar da celebridade.
O lugar da anciã foi sendo substituído pela mulher eternamente disponível ao olhar.
O lugar do homem maduro foi sendo substituído pelo homem que precisa provar potência, conquista, sucesso e desempenho.
O lugar da transmissão foi cedendo espaço ao espetáculo.
E, quando os adultos não querem amadurecer, os jovens ficam sem espelho profundo.
O imperativo do prazer e do glamour
Vivemos uma cultura que fala muito sobre liberdade, mas pouco sobre estrutura.
Fala muito sobre viver experiências, mas pouco sobre metabolizá-las.
Fala muito sobre prazer, mas pouco sobre consequência.
Fala muito sobre autoestima, mas pouco sobre responsabilidade psíquica.
Fala muito sobre se reinventar, mas pouco sobre sustentar uma forma interna.
O resultado é uma espécie de juventude prolongada, não no sentido vital da abertura à vida, mas no sentido defensivo da recusa em atravessar os limites, as perdas e as tarefas da maturidade.
O prazer, quando não encontra estrutura, torna-se dispersão.
O glamour, quando não encontra profundidade, torna-se superfície.
A liberdade, quando não encontra eixo, torna-se atuação.
E a identidade, quando não encontra interioridade, torna-se personagem.
Nesse cenário, quem está crescendo aprende muito cedo a performar, mas nem sempre aprende a se orientar.
Aprende a aparecer, mas não necessariamente a habitar a própria vida.
Aprende a escolher, mas não necessariamente a sustentar uma escolha.
Aprende a desejar, mas não necessariamente a distinguir desejo de compensação.
Aprende a se expor, mas não necessariamente a preservar o que é íntimo, precioso e ainda em formação.
O jovem adulto e a crise de orientação
Entre os 25 e 34 anos, muita gente começa a sentir uma tensão específica.
A vida já começou a exigir forma. Já não se trata apenas de experimentar. É preciso escolher, permanecer, trabalhar, amar, separar-se, construir, perder, recomeçar, responder pelas próprias decisões.
Mas muitos chegam a essa fase com uma estrutura interna insuficientemente orientada.
Por fora, a pessoa pode estar funcionando: trabalha, estuda, se relaciona, viaja, consome, produz, publica, responde mensagens, faz planos.
Por dentro, porém, pode haver uma sensação persistente de desencaixe.
Algo como:
“Estou fazendo tudo, mas não sei se estou no meu caminho.”
“Tenho muitas possibilidades, mas nenhuma direção.”
“Tenho liberdade, mas não tenho centro.”
“Tenho imagem, mas não tenho sustentação.”
“Tenho desejos, mas não sei o que em mim realmente deseja.”
Essa crise não é apenas individual. Ela é também cultural.
Porque uma cultura que glorifica a juventude, a performance e o prazer imediato enfraquece as figuras de transmissão. E, sem transmissão, cada sujeito precisa inventar sozinho aquilo que deveria ter sido parcialmente sustentado pelo tecido simbólico.
O tecido rasgado da transmissão
Há algo no campo humano que se transmite de geração em geração.
Não apenas traumas. Também recursos, símbolos, gestos, valores, linguagem, rituais, formas de cuidado, modos de suportar a dor, de atravessar perdas, de elaborar conflitos, de reconhecer limites.
Quando essa transmissão falha, o sujeito cresce com lacunas.
Ele pode até ter acesso a muita informação, mas não encontra sabedoria encarnada.
Pode ter contato com muitas opiniões, mas não encontra referência.
Pode ter liberdade de escolha, mas não desenvolve critério.
Pode ter acesso a inúmeras formas de prazer, mas não aprende a diferenciar prazer de fuga.
Pode ter autoestima estimulada, mas não desenvolve responsabilidade por aquilo que faz com a própria vida.
É nesse sentido que podemos falar de um tecido ferido: uma camada de transmissão humana, familiar, cultural e simbólica cheia de furos.
E onde há furos na transmissão, os mais jovens ficam perdidos.
Não necessariamente perdidos de modo evidente. Muitas vezes, estão bem vestidos, bem formados, bem informados, bem adaptados.
Mas internamente desorientados.
A falência da autoridade madura
É preciso diferenciar autoridade de autoritarismo.
Autoritarismo impõe.
Autoridade sustenta.
Autoritarismo exige obediência.
Autoridade oferece eixo.
Autoritarismo fala de cima para baixo.
Autoridade transmite a partir de uma experiência metabolizada.
Uma cultura ferida muitas vezes rejeita a autoridade porque conheceu apenas sua versão abusiva, moralista, rígida ou opressora. Mas, ao rejeitar toda forma de autoridade, também perde algo essencial: a possibilidade de orientação madura.
Sem autoridade simbólica, sobra opinião.
Sem anciãos, sobram influenciadores.
Sem transmissão, sobra tendência.
Sem elaboração, sobra consumo de experiência.
Sem maturidade, sobra performance de liberdade.
E então surge uma pergunta clínica e cultural decisiva:
quem orienta uma geração quando aqueles que deveriam transmitir estão ocupados demais tentando permanecer desejáveis, jovens, admirados e intocados pela passagem do tempo?
O papel da clínica profunda
A clínica, quando levada a sério, pode se tornar um dos poucos lugares onde essa pergunta ainda encontra espaço.
Porque a análise profunda não existe para oferecer conselhos rápidos, nem para adaptar o sujeito a uma vida superficialmente funcional.
Ela existe para investigar a estrutura que sustenta o sofrimento.
Existe para perguntar: que forças estão operando por baixo das escolhas? Que repetições se disfarçam de liberdade? Que imagem de si o sujeito está tentando sustentar? Que partes permanecem infantis, feridas, perdidas ou não integradas? Que autoridade interna ainda não se formou?
A clínica não substitui a vida. Não substitui a família. Não substitui a cultura. Mas pode oferecer um espaço de reconstrução simbólica quando a transmissão falhou.
Muitas vezes, o sujeito chega sem saber exatamente o que procura. Diz que está cansado, confuso, repetindo padrões, insatisfeito, angustiado, sem direção. Mas, por trás disso, há uma pergunta mais profunda:
onde está o eixo a partir do qual eu posso viver de modo mais inteiro?
Essa pergunta não se responde com frases motivacionais. Ela exige trabalho.
Crescer não é apenas ter experiências
Um dos equívocos do nosso tempo é confundir experiência com maturidade.
Ter muitas experiências não significa ter elaborado essas experiências.
Mudar de cidade, de relacionamento, de trabalho, de estética, de crença ou de estilo de vida não significa necessariamente evoluir.
Às vezes, a pessoa apenas troca o cenário da mesma desorientação.
A maturidade não nasce da quantidade de experiências vividas, mas da capacidade de simbolizá-las, integrá-las e responder por elas.
Crescer não é apenas fazer escolhas.
É desenvolver uma estrutura interna capaz de sustentar as consequências das escolhas feitas.
Crescer não é apenas buscar prazer.
É reconhecer quando o prazer está servindo à vida e quando está apenas encobrindo o vazio.
Crescer não é apenas romper com o passado.
É diferenciar-se sem perder a relação com a memória, com a origem e com a responsabilidade.
Crescer não é apenas aparecer no mundo.
É saber o que, em si, deve ser preservado do olhar do mundo até encontrar forma suficiente.
A pergunta que precisamos recuperar
Talvez uma das grandes tarefas clínicas e culturais deste tempo seja recuperar a pergunta pela orientação.
Não uma orientação moralista.
Não uma orientação autoritária.
Não uma orientação que diga ao sujeito quem ele deve ser.
Mas uma orientação estrutural, capaz de ajudá-lo a reconhecer o que nele ainda está disperso, ferido, inflado, infantilizado, dissociado ou capturado por imagens externas.
Porque há pessoas vivendo como se fossem livres, mas estão apenas reagindo.
Há pessoas buscando prazer, mas fugindo de contato.
Há pessoas construindo imagem, mas perdendo interioridade.
Há pessoas performando potência, mas sem eixo.
Há pessoas confundindo visibilidade com existência.
E há jovens, muitos jovens, tentando crescer em meio a uma cultura que lhes oferece espelhos brilhantes, mas poucos lugares de verdadeira orientação.
Restaurar a transmissão
Orientar não é controlar.
Orientar é ajudar alguém a encontrar direção.
É oferecer linguagem onde há confusão.
É oferecer contorno onde há excesso.
É oferecer profundidade onde há superfície.
É oferecer presença onde há abandono simbólico.
É oferecer estrutura onde há dispersão.
Talvez, hoje, uma parte importante do trabalho clínico seja justamente essa: restaurar algo do tecido da transmissão. Não para repetir modelos antigos, nem para idealizar o passado, mas para reconstruir uma possibilidade de amadurecimento real.
Porque quando quem deveria ocupar o lugar de maturidade se recusa a envelhecer, quem está crescendo fica sem referência.
E quando uma cultura inteira se ajoelha diante do prazer, da juventude e do glamour, aquilo que é mais frágil — o sujeito em formação — fica desprotegido.
A pergunta, então, permanece:
quem está orientando quem ainda está crescendo?
Essa pergunta não é apenas sobre os jovens.
É sobre todos nós.
Porque uma cultura que abandona seus jovens também revela que perdeu contato com seus próprios centros de maturidade.
E talvez o início da restauração esteja justamente aqui: reconhecer os furos do tecido, descer do salão iluminado da aparência e voltar a procurar, nos lugares esquecidos, aqueles que ainda precisam de direção.
Não para salvá-los.
Mas para que não precisem crescer sozinhos no meio da festa.
Onde a maturidade se ausenta, a juventude não encontra oposição criativa: encontra abandono.