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“Somos imagem e semelhança do Criador.”
Essa frase sempre me faz pensar.
Porque, quando a escutamos de modo muito literal, parece que há ali uma espécie de exigência de reprodução. Como se a criatura devesse se tornar uma cópia do Criador. Como se a perfeição estivesse em apagar a diferença, a singularidade, a forma própria.
Mas
nenhum pai saudável olha para um filho e pensa:
“Quero que ele seja uma cópia minha.”
Nenhuma mãe suficientemente inteira deseja que o filho repita sua forma, sua história, seus gestos, suas escolhas, sua dor, sua ferida.
O que uma mãe ou um pai saudável deseja é que aquele ser viva. Que cresça. Que encontre alguma ordem interna. Que possa atravessar o mundo sem se destruir, sem se perder completamente, sem precisar amputar a própria alma para ser amado.
Talvez seja isso que a frase queira dizer em um nível mais profundo.
Não que
sejamos cópias do Criador.
Mas que carregamos, em nossa estrutura, a possibilidade de criar.
Criar
vida.
Criar vínculo.
Criar linguagem.
Criar caminhos.
Criar sentido onde antes havia apenas repetição.
Ser imagem e semelhança talvez não signifique reproduzir uma forma divina pronta, acabada, imóvel. Talvez signifique carregar em nós uma centelha criadora: a capacidade de organizar o caos, de sustentar tensões, de gerar algo mais equilibrado a partir da matéria bruta da experiência.
Quando criamos um filho, um projeto, uma obra, uma escola, um texto, uma casa interna, o que desejamos — se estamos minimamente saudáveis — não é que aquilo nos imite.
Desejamos que aquilo floresça.
Desejamos que encontre o melhor equilíbrio possível entre força e delicadeza, entre autonomia e vínculo, entre forma e movimento.
Talvez o Criador não queira filhos idênticos a Ele.
Talvez o
Criador queira criaturas vivas.
Criaturas capazes de participar da criação, não por obediência cega, mas por
maturidade.
Porque toda criação verdadeira precisa se diferenciar de sua origem.
Um filho
que só copia os pais não se tornou inteiro.
Um projeto que só repete seu criador não ganhou alma própria.
Uma tradição que só exige repetição não transmite vida; amortece a potência da alma.
A criação
saudável não deseja clones.
Deseja continuidade viva.
E talvez seja aí que a imagem e semelhança se revelem: não na cópia, mas na capacidade de criar com consciência. De cuidar do que nasce. De sustentar o que ainda é frágil. De permitir que aquilo que veio de nós não pertença inteiramente a nós.
Porque criar não é possuir.
Criar é gerar uma forma e, aos poucos, permitir que ela respire por si mesma.
Talvez sejamos imagem e semelhança do Criador justamente quando deixamos de querer controlar a vida que passa por nós — e começamos a colaborar com ela.
Mais um texto do blog Psimbolom.
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